Riacho Mágico
MLLago
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Aos 9 anos, achei que Deus não existia ou, se existia, era muito mau.
Meus pais e minha única irmã morreram num acidente de trânsito. Morreram todos instantaneamente. Fiquei só no mundo, em apenas um instante: sem o carinho da minha mãe, sem a amizade do meu pai e sem a companhia da minha irmãzinha. Apenas só.
Eu não morri com eles, porque preferi ficar em casa, assistindo televisão. E, por isso, passei muitos anos sem assistir televisão.
Eu me culpei por muito tempo, por não ter morrido junto com a minha família. As pessoas dizem que “os bons são os que morrem cedo” e culpava-me por ser mau.
Fui um menino normal e comum, como todos os outros. Fazia as bagunças que todos os meninos faziam. Era desobediente, mentia e, às vezes, fazia pequenas maldades com minha irmã. Eu era como todas as crianças.
De tanto pensar que eu era mau, e que, por isso não tinha morrido no acidente, creio que aumentei o meu potencial negativo. Comecei a arquitetar maldades verdadeiras.
Algumas pratiquei, outras ficaram apenas no meu pensamento.
Quando nos imaginamos maus, a maldade cresce em nós. É possível que eu não tivesse capacidade de pensar diferente, após tudo o que me aconteceu.
Eu queria morrer também, para provar que não era tão mau assim, mas nunca cheguei a pensar em suicídio.
Eu sabia que as pessoas que se suicidavam iam para o pior lugar do inferno. A única coisa que eu queria era voltar para a minha família.
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